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D.A.M.

DESENVOLVIMENTO ANÍMICO DO MOVIMENTO

 

 

É um projeto de pesquisa que tem como objeto de estudo a essência do movimento em relação às mais diversas circunstâncias e suas manifestações.

 

O processo se desenvolve a partir da observação dos fluxos de movimento procedentes de situações cinéticas específicas, a fim de extrair impressões para serem analisadas, reorganizadas e direcionadas para a composição de experimentos cênicos compostos pela mesma dinâmica observada.

 

Cada impressão identificada possui características próprias que remetem a sensações de expansão e contração em relação ao fluxo de movimento do qual é proveniente. As combinações dessas sensações geram cargas que podem ser lidas sensorialmente através da percepção de graduações de densidade. Uma vez que a carga de densidade passa a ser transcrita simultaneamente, tanto no espaço interno quanto no espaço externo, ela também passa a ser visualizada na forma de estruturas abstratas, que na verdade são extensões da realidade relativa criada por este processo, que fundidas às noções de espaço e tempo, induzem a uma leitura simultânea de todos os elementos, não permitindo mais reconhecê-los de maneira independente ou isolada.

 

O resultado desta iniciativa se demonstra através de trabalhos que surgem de idéias relativamente simples, e que são concebidos para funcionar como sistemas dinâmicos, onde todos os elementos presentes convergem dentro de uma lógica própria, a qual define suas diretrizes de funcionamento e conseqüentemente a ação do performer. Sendo assim, podemos considerar que neste processo de criação a narrativa permanece sempre em aberto, pois nunca procede de um tema específico ou de uma idéia já preconcebida, ela simplesmente se faz presente e se define pelo olhar relativo do espectador, de acordo com a leitura da carga sensorial gerada em cena.

 

Na prática dos procedimentos de pesquisa, fluxos de movimentos podem ser observados através de pontos de referências distintos. É possível extrair impressões cinéticas de sensações internas, de imagens de pensamento, de estados de ânimo, da percepção do deslocamento de um corpo transcrito no espaço, das sensações causadas pelo movimento do próprio corpo em relação às forças as quais está submetido. Enfim são infinitas as possibilidades e suas combinações.

 

Ultimamente uma das práticas que tem sido regularmente abordada no processo de investigação é o uso de objetos como material de estudo no desenvolvimento da integração de dinâmicas de movimento. Alguns foram criados ou elaborados para o exercício de uma ação determinada, outros são de uso comum, mas foram retirados do seu contexto original e utilizados em função de suas características cinéticas. A aplicação destes objetos é abrangente: funcionam como instrumentos inerciais, cuja manipulação determina a linguagem de movimento da obra e seus conceitos de construção; potencializam fluxos de movimento, tornado-os mais evidentes; agem como medidores de tempo e espaço criando referências para a leitura de impressões cinéticas; estimulam a visualização de estruturas abstratas; determinam condições de aleatoriedade; conduzem a ação, submetendo a criação do movimento à sua dinâmica; e ampliam o estado de percepção a ponto de facilitar a identificação simultânea dos vários fatores presentes na cena. Enfim, o desenvolvimento de um estado de percepção integrado em uma unidade, é definido dentro dos parâmetros de pesquisa como "Corpo Sensorial", e representa uma das condições primárias para a elaboração de uma linguagem anímica de movimento.

 

Em um contexto geral, "Anímico" é tudo aquilo que se refere à alma (latim: anima), a que se pode atribuir os mais diversos significados, tais como: princípio de vida, essência, condição primacial, ânimo, coragem, entusiasmo, vontade, etc. O termo anímico, dentro do contexto desta pesquisa, se refere à essência do movimento em função da força que o ativa. Se considerarmos qualquer tipo de manifestação do movimento como uma ação, o reconhecimento da sua essência estará intrinsecamente ligado à identificação da sua origem e ao entendimento da rede de reações causadas por esta ação.

 

Em outra situação, se observarmos a ação do ponto de vista da consciência, poderemos notar que ela é sempre precedida de uma intenção, seja a intenção consciente ou não, ela sempre advém de três estados internos conjugados, que de acordo com as circunstâncias se alternam em suas predominâncias, influenciando diretamente a realização de uma ação. Estes estados internos poderiam também ser considerados como estados anímicos, e seriam representados pela vontade (desejo, ânimo, ímpeto, instinto, etc.), pela sensibilidade (sensação, percepção, emoção, sentimento, etc.) e pela razão (pensamento, idéia, análise, etc.). Portanto, poderíamos afirmar que toda e qualquer ação humana se origina da predominância de um destes três estados anímicos conjugados. Seja a ação consciente, inconsciente, instintiva, casual, reativa, ou intuitiva, sempre estará associada a um fator interno.

 

Na prática do método de Desenvolvimento Anímico do Movimento, os estados atuam integrados em um mesmo foco e ordenados em uma sequência de predominância, que permita a manifestação de um ciclo contínuo de transição de estímulos. No caso, uma impressão é identificada e seu teor é absorvido e compreendido sensorialmente, criando parâmetros para que as informações se ordenem e se organizem a fim de gerar estímulos. Os estímulos se ativam em um sistema, cujo funcionamento proporciona a identificação de uma nova impressão que se enquadre na sua diretriz primária, reiniciando um novo ciclo, e assim conseqüentemente. Sob o olhar do observador, o alinhamento dos estados focalizados em um ponto em comum, cria o filtro necessário para selecionar as impressões que seriam significativas para estabelecer a estrutura dinâmica deste sistema, segundo seus teores de densidade.